quinta-feira, 14 de abril de 2011

Gastronamor

E se você me fritar e eu gostar?
E se eu gostar demais?
E se eu gostar demais de gostar de menos?
E se desgostar, e o gosto ainda assim for bom?
E se melar, e o tal melado nos grudar?
E se queimar, e o fogo não machucar?
E se esfriar? E se de novo esfriar tudo?
Voltamos a nos cozinhar?

terça-feira, 12 de abril de 2011

Chuva em mim

Choveu em mim tuas lágrimas
Molhando cada folha dessa árvore
Seca e de raiz profunda que sou eu.
Com flores espinhosas e frutos podres,
E que ainda assim de você não se hidrata,
Nem suga nenhuma gota da tua vida.
Choveu você em mim, sempre chove,
Mas chove torto e nada agora rega.
Não sei mais se sou árvore ou pedra.

Doação

Sonho com o que o escuro dos meus olhos não alcança
E o que só o silêncio não explica.
Sonho com gritos enfurecidos de vida,
Em beijos serenos.
Neblina.
Visão confusa, mas ainda atenta,
Aceitando minhas próprias doenças,
Minhas culpas tão facilmente absolvidas.
Boemia?
Amor furiosamente pacífico,
Que só ataca heróis que se deixam morrer,
Madrugando, em mesas de bar, virando lágrimas.
Bebida.
Companhia das minhas aventuras mais reprimidas.
O meu sonho é do mundo, não é só meu.
Sonho com freqüência acompanhada.
Acordo sozinha.
O mundo também acorda com minha dança matinal,
E sempre fecha as cortinas pra quem comunga a própria vida,
Antes de recomeçar seu pesadelo particular.
Infinita...

sábado, 9 de abril de 2011

Banco de Cuidados

Enquanto eu ainda estou aqui na tua vida
Contando os minutos que me são de direito
Esperando que você finalmente me atenda
E injustiçada, pensando no alto preço que pago
Pra estar ao teu lado, mas sozinha

Posso de repente lembrar com mais cuidado
De outros quinze que agora me aguardam
Aqui do meu lado, ali na esquina
Valorizando muito mais o meu sorriso
Com atendimento preferencial e sem fila.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

O encontro

Pálida, fria, tremendo.
Estou aqui agora, nervosa,
Encurvada diante de mim mesma
Rezando por alguma certeza,
Ou pelo menos uma frase pronta pra dizer.

Talvez esperando só um telefonema teu
Pedindo pra eu abrir logo a porta,
Pra eu não mais me fazer de morta
Nem fugir novamente da nossa vida,
E voltar pra’quele amor de ontem, resolvida.

Mas a única coisa que consigo agora
É morrer de medo do que eu possa ser,
Nesses infinitos minutos que vão existir,
E tudo o que neles pode acontecer,
Antes de te ver.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

O canto de Libras

Só me restou ser essa bailarina desafinada,
Dançando sozinha uma vida parada,
Pois o canto que trago alfinetado na garganta
Não consegue dizer mais nada.

Agora só canto pelas minhas mãos,
Abraçadas sempre a uma folha vazia,
Criando inúmeras melodias vans
E canções que nunca serão ouvidas.

Instrumento sem música
Voz sem som
Eu sou o silêncio.
Silêncio.

Canto a humana poesia nesse momento.

Dívida eterna de uma mente com lembranças

Você não pagou sua dívida com meu coração
E me deixou individada com o mundo.
Estou agora devendo uma vida,

Negociada com lágrimas de espera,
Sorrisos nostálgicos,
E uma falta gigantesca do teu colo.

Buscando sempre o teu beijo apertado,
E aquele teu abraço de quebra-cabeça.
E confusa.

E se eu for obrigada a comprar outra vida
Que não seja a tua-minha,
E achar caro demais?

E se, deslumbrada com o novo,
Eu gostar das peças desse outro jogo
E não te quiser mais?

Fora qualquer resposta,
Existe agora apenas uma saudade,
Saudade imensa de tudo o que a gente viveu em prestações,

Pequenas parcelas de tanto sentimento.
Pequeno tempo eterno,
Infinita saudade.

E agora me pego aqui, idiota, vivendo de memórias,
Vendendo-me por tão pouco pela tua simples presença,
Sendo que pago sempre uma fortuna por esse teu sorriso barato.

domingo, 3 de abril de 2011

Café com Leite

Há muita cafeína nesse corpo
Que agora não dorme,
Insone esperando o teu.
Que sonha com cada gota quente
Que da tua boca já saiu.
Gotas negras de um amor sem razão,
De um amor sem distância,
Sem verdade.
Sem vergonha.
De um sentimento infinito,
Mas sempre acabado,
Marcado pelo cheiro do teu quarto,
E por aquela coisa que só o pó
Do meu peito despedaçado
Parece ser capaz de produzir.
Pra matar a tua sede de mim
E a tua fome da minha vida,
Tua vontade insaciável do que poderia ser,
Não tivesse passado da hora,
Não estivéssemos separados demais.
Distantes no tempo e no espaço,
Distantes nos nossos retratos,
Mas com a proximidade imensa
E quimicamente perfeita
De dois seres opostos,
De duas substâncias que nunca se retraem.
E como leite e café
Nossas vidas sempre se atraem.

Suicídio do Passado

A morte já não é o fim.
Morrer para si pode ser um recomeço
E suicidar-se na vida de alguém
O começo de uma nova vida.
Já não há certezas de tempo,
De certo e errado.
Apenas de um peito que bate duvidoso
Pedindo arrego,
Sofrendo calado,
Molhando a face de quem enterrou uma vida
Porque assim se fez necessário.

Conselho

Doendo novamente
O que já não tinha mais pra onde doer
Bem que minha mãe me dizia
Que o que parecia nunca era
Que poetas não amavam como na poesia
E que quem sofreria mais seria eu
Sim, mãe nunca erra
E a minha também não errou
Hoje meu coração entendeu...

Ócio Poético

Quedas
Retrocessos
Passados inacabados
Futuros incertos

Cores mortas
Noites fridamente frias
Dias quintanescos

Sonhos constantes
Abismos coloridos
Caio.

Caneta
Tinta
Poesia.

Clariciar...

É bonita.
É a vida.
São os pássaros nos quais nos tornamos,
São os vôos que arriscamos dar...

segunda-feira, 28 de março de 2011

Desabafo de um eu-ateu-místico-cristão

Se há em mim um Deus, ou qualquer deus,
Se vários, ou um só,
Se há uma mínima verdade,
Na qual eu possa agora descansar meus pensamentos,
E um único ombro onde desabar todas essas lágrimas,
Presas por um nó infinito na minha voz,
Voz de quem agora já não canta nenhuma beleza,
Dessa boca que sorri mergulhada em tristeza,
Se há qualquer coisa de maior em mim que eu mesma,
E que possa me salvar de mim
E desse castigo que tem sido ser quem sou,
Pelo amor desse deus que eu desconheço,
Apareça agora e me liberte,
Pegue-me nos braços de uma paz qualquer e me carregue,
Porque a vida agora anda rastejando dentro de mim.

Guerra em mim

Quando irei desarmar meu peito
E enfrentar de frente as guerras nas quais me meto?
Quando perderei o medo?
Não há como lutar sem coragem.
Não há como ir a uma guerra e não se machucar.
Ninguém vence sequer uma batalha sozinho.

Não há guerra e não há amor sem riscos.

Talvez o que me falte seja um companheiro de luta.
Não apenas mais um soldado, armado pela força,
Mas um guerreiro, armado por sonhos.
Aquele por quem eu vá a Roma sem sequer uma palavra.
Aquele por quem toda guerra seja válida
E toda marca seja justa.

Constatação besta

O relógio andando,
O meu tempo parado,
Desordem no quarto,
Atraso nos trabalhos,
Bagunça no peito,
Coração abandonado,
E só.

Eu preciso, preciso tanto
Que apareça alguém
Que pare o meu relógio,
Acelere meu tempo,
Bagunce comigo o meu quarto,
Aquiete meu peito
E adote meu coração.

Preciso, preciso muito
De um novo amor pra curar essa solidão.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Eu não

A minha relação com o "não" é incoerente.
Quando ele sai de mim,
sai com a facilidade de quem não se permite,
de quem tem medo de sei lá o que,
sempre.
Relação fácil e constante.
Rotineira, eu sei.
Mas quando ele me vem,
vem com o peso de alguém imaturo,
que não sabe lidar com as negações
ainda,
de quem se frustra com qualquer censura
e, admito, tem um ouvido mimado com "sim's"...
O que eu ainda preciso aprender
é que ao dizer não aos outros também digo não a mim.
A censura é mútua ao não se permitir.
Talvez por isso, também,
o meu grande descontentamento comigo mesma
ultimamente...

terça-feira, 22 de março de 2011

Atemporal

Antes do anoitecer te vi
e antes do amanhecer nosso filme teve um fim.
Estou aqui agora
tomada pela sensibilidade confusa
de uma alma poética que há muito vive assexuada.
Não não, ainda há muito de amor em mim.
Vivo tomada por uma alma bi, tri,
poliemocional, diria...
Mas sozinha.
Talvez.
Talvez um novo verso saia,
estupre-me esse momento e me salve.
Talvez ele fique e me mate.
Talvez ele já seja um prematuro,
nascendo agora, novo herdeiro órfão de mim mesma,
filho de quem eu nem sei quem sou.
Mas quantos nascimentos ainda terei que ter para viver?
E me ser?
Quantos versos ainda terão que de mim partir,
para talvez, um dia, te ter?
Não sei.
E antes do entardecer de hoje eu gostaria de te ver...

sexta-feira, 18 de março de 2011

Aviso:
Devido ao significativo número de comentários anônimos, e por sentir que o foco dos mesmos nem sempre era a poesia, fugindo do propósito do blog, e mais ainda, diante da minha dificuldade de lidar com as coisas "ocultas", resolvi mudar as configurações dos comentários para apenas pessoas identificadas. Desculpem-me se isso parecer censura, ou que não gostei do que li (em alguns casos gostei bastante), mas é algo meu que não consegui não considerar. Espero que alguns "anônimos", caso realmente ainda tenham interesse, se denominem em futuros comentários... Abraços! E obrigada pelo tempo dedicado durante essas visitas.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Milagre

Se o positivo não pode com o negativo
Eu não espero que todos os dias um novo milagre apareça
Essa coisa de fator só funciona
Pra quem escuta apenas a cabeça.
Nada nunca deve ser separado
A foto e o porta-retrato, o peixe e o aquário,
Nem mesmo os opostos
O belo e o feio, o redondo e o quadrado.
Só a Esquerda e a Direita,
Por uma questão funcional de lados...
Só a razão separa.
Mas eu não, eu tenho um coração elétrico
Que nunca se importa com o que é incomum
Que espera apenas que o milagre da vida aconteça
E que continua tentando se unir a todos os pólos do mundo.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Circo Voador

Você chegou
Circo voador, passou por aqui
Fingiu sonhar comigo
E me fez pular do meu trampolim
Encantada, me fiz escrava
Servindo aos seus pés todas as minhas faces
Todos os pesares
De um triste palhaço
Ou de um domador ruim
Viu-me louca
Ciumenta e solta, beata e meretriz
Menina forte
Mulher sem vida
Descobriu-me onde nem eu me sabia.
E ao seu lado eu me fiz atriz
Dançando canções conforme quis
E ao embalo desse amor pagão
Vi-me um dia numa dança sem razão
Em um palco sem luz, dançando iluminada
Nenhuma platéia apaixonada
E então pude perceber que o nosso espetáculo já tinha um fim.
Circo voador, você voou sem mim.

Anônimos

Entre palavras tão escuras
De um claro grande mistério
E de um sentimento tão navegante
Desses que só existem de passagem
Fica apenas a curiosa pergunta
De quem não sabe a quem responder:
Será que os anônimos se atraem?